Avaliação | Análise do espaço e da intervenção na Casa da Glória a partir dos conceitos apresentados no livro “Lições de Arquitetura”, de Herman Hertzberger
O Instituto Casa da Glória, em
Diamantina - MG, é composto por dois antigos casarões em estilo colonial, sendo
um datado do século XIII e o outro, do século XIX. Embora construídos em um
contexto bem diferente do qual vivemos atualmente, são passíveis de análise
através dos conceitos apresentados por Herman Hertzberger em seu livro “Lições
de Arquitetura”, de 1991 (data da publicação original em inglês). Neste texto
será feita uma análise em torno do primeiro pavimento do prédio mais novo, do
século XIX, que abriga o Instituto de Geologia Eschwege, e a intervenção
proposta pelo grupo para o espaço, com foco nos seguintes conceitos: forma
convidativa; urdidura e trama; polivalência, flexibilidade e funcionalidade;
articulação entre o público e o privado; irregularidades; e gradações de
demarcações territoriais.
Assim
como grande parte dos casarões em estilo colonial, a Casa da Glória não possui
recuo frontal em relação à calçada, de modo que a primeira impressão
transmitida ao transeunte é a de um lugar fechado, pouco receptivo. O relevo
irregular de Diamantina, por sua vez, forçou que fosse feita uma escada para se
acessar a porta principal, gerando mais uma forte marcação.
Apesar disso, esse
desnível do terreno induziu a elevação da faixa da calçada à frente das portas,
com o intuito de criar uma zona plana sob as janelas frontais e a porta
principal, o que resultou em uma forma que, pela altura, acaba por convidar
pessoas a se sentarem, demonstrando como as irregularidades podem ser
exploradas ao invés de somente anuladas. Mas apesar de essa ser uma característica
muito interessante do local, a presença da escada continuava muito forte, confrontando
com as necessidades da intervenção. Assim, buscaram-se outros elementos da
fachada que pudessem ser utilizados para tornar o espaço mais convidativo.
Decidiu-se utilizar como
principal entrada o portão de madeira à direita da fachada. Sua abertura mais
ampla, além de estar no nível da calçada, conduz a um pequeno pátio descoberto,
de modo que passa a sensação de um lugar mais aberto, em conexão com a rua, sem
inibir o pedestre com uma demarcação bruta e rígida. Complementarmente a isso, foi
proposto que o material do piso da calçada avançasse por esse pátio, servindo
para suavizar ainda mais a transição entre os espaços. O resultado é um
intervalo entre o espaço fechado e a rua, capaz de estabelecer uma demarcação
gradativa de onde termina o espaço público e começa o privado.
No
interior do edifício, a intervenção se centrou no salão de exposições, um
espaço muito amplo e repleto de pilares. Essa característica entra na questão tratada
por Hertzberger sobre as dimensões do espaço, pois a amplitude excessiva do
salão dificultava a sua ocupação, e a questão patrimonial dificultaria qualquer
ação no sentido de erguer paredes naquele ambiente. Mas ainda era possível tentar
explorar o espaço sobre a ótica da polivalência, flexibilidade e
funcionalidade: o grupo encontrou uma configuração, através de móveis retráteis
e soltos, que, ao mesmo tempo em que concedia um uso ao ambiente, deixava
abertura para diferentes usos pontuais ou futuras reorganizações.
Por
fim, a ideia dos espaços flexíveis também pode ser relacionada com os conceitos
de urdidura e trama, uma vez que a abertura dada pela estrutura da intervenção —
bancos que viram estantes, estantes que viram mesas, etc. —, em conjunto com as
possibilidades de ações previstas para o espaço — o uso como cafeteria ou bar e
a presença de estantes com livros — permite que sejam constituídas diversas “tramas”,
representadas pelos diferentes usos cotidianos, sobre uma mesma “urdidura”, na
imagem da estrutura física do espaço.